o que aconteceu de errado na 7.ª temporada (e o que pode o último episódio corrigir) – Observador

By | 27th August 2017

Está a chegar o fim de mais uma temporada da “Guerra dos Tronos”. Será que nos vai deixar um ano em pulgas à espera do regresso ou já não se fazem mortos-vivos, dragões e chacinas como antigamente?

Não nos interpretem mal. A “Guerra dos Tronos” continua a ser do melhor que a televisão alguma vez deu ao mundo; e a sétima temporada está recheada de grandes momentos. Este artigo é, na verdade, de uma ingratidão sem nome. Somos o geek a quem a Angelina Jolie deu bola e agora estamos a desdenhar – que está muito magra, que está pálida, que tem uma ruga. Ou uma espécie de Tyrion, vá, que botasse defeito em Daenerys. Mas que querem? Ela é que nos habituou mal. Durante seis anos, George RR Martin, David Benioff e DB Weiss puseram a fasquia lá em cima; toda a pequena falha era perdoada aos enamorados olhos dos fãs. Mas, depois do episódio da semana passada, passou a ser impossível olhar para o lado. Eis as 7 coisas estranhas que estão a acontecer nos 7 reinos. Será que o 7.º episódio da 7.ª temporada ainda as pode salvar?

A “Guerra dos Tronos” tem lugar num mundo ficcional sem correspondência com o nosso. Não temos como saber objectivamente que distâncias separam os sete reinos de Westeros entre eles, Westeros de Essos, cada um dos muitos mares de todos os outros e por aí afora, mas, aos poucos, fomos acumulando alguma informação relativa.

Desde que, na terceira temporada, Gendry foi, num só dia, de barquinho a remos de Dragonstone a King’s Landing, isto é, a mesma distância que Stannis Baratheon demorara toda a segunda temporada a percorrer, mesmo estando à frente de uma poderosa armada de grandes navios de guerra, que sabíamos que nem tudo estava certo nesta matéria – mas, lá está, o que era essa pequena falha perante a imensidão da nossa devoção? O tempo é o espaço em movimento, já dizia Einstein, de modo que é relativo – mas a sétima temporada abusa.

Enquanto personagens como Jon Snow, Jamie Lannister, Tyrion ou Jorah Mormont já palmilharam todo o mundo de “Game of Thrones”, outras, como Daenerys ou os Caminhantes Brancos, parecem ainda na mesma longa marcha do ponto A ao ponto B que iniciaram no primeiro dia da série, nos longínquos idos de 2011. Lembram peças de xadrez, que se movem realmente a velocidades diferentes; como se uns fossem cavalos ou bispos e outros meros peões – o que até seria um dispositivo dramático muitíssimo interessante e original, houvesse uma correspondência com o estatuto das personagens.

Um guia para seis temporadas: tudo o que já aconteceu na “Guerra dos Tronos”

O penúltimo episódio bateu, a esse respeito, todos os recordes. Enquanto Jon Snow e companheiros fizeram uma longa viagem desde a muralha até ao confronto com os Caminhantes Brancos, Gendry percorreu a mesma distância em sentido contrário num só sprint. De igual modo, corvos e dragões sobrevoaram esse espaço que vai da civilização ao mundo gelado dos mortos em poucos minutos – já os mortos estão a tentar fazê-lo há sete temporadas! É verdade que estão mortos, mas, caramba, é uma morte muito lenta. No fim do dia, uma pessoa já não se sabe guiar: Westeros será um continente inteiro à maneira de uma Europa, ou apenas um Portugal, onde Winterfell é o Minho e Dorne o Algarve? E as Ilhas de Ferro os Açores – mas com um sotaque menos giro?

OK. Vamos lá ver: os dragões são espectaculares? São. Se gostávamos de ter um? Devia ser uma despesa em ração e areia, mas, irra!, de certeza que nunca mais havia uma chatice com um vizinho, um parceiro a roubar-nos o lugar de estacionamento, um qui pro quo numa discoteca – além de que se poupava imenso na conta do gás. Porém, há vários problemas com os dragões que vêm de trás e se acentuaram, francamente, na temporada 7.

Ponto um: os cavalheiros crescem tão depressa como digamos, os gatos (não é que uma pessoa saiba quão depressa deveria crescer um dragão, mas bichos grandes costumam ter um desenvolvimento demorado).

Ponto dois: por mais fabulosos que possam estar desenhados, continuam a tresandar a CGI, furando a suspension of disbelief.

Ponto três: à sétima temporada, ainda não têm personalidade. Alguém os consegue distinguir? É suposto o Drogon ser mais “especial”, mais temperamental, mas conseguem reconhecê-lo? E quem é o Viserion? E o outro? OK, os geeks se calhar sabem que um é maior e mais preto e o outro mais verde e o outro mais bege, mas… e as pessoas normais? E qual deles é que levou com a lança do Night King? Quem é que percebeu qual deles foi sem ir ao Google? Ao fim de uns minutos de brincadeira, já se conseguem discernir algumas diferenças entre dois cães da mesma raça e criação, mas estes dragões são, desse ponto de vista, lança-chamas com asas.

Ponto quatro e o mais importante: é suposto os dragões fazerem toda a diferença nesta guerra que dá nome ao título português da série; no entanto, e pelos vistos, basta uma lança bem atirada para os mandar desta para melhor. Têm a resistência do Bambi, portanto. Circula, aliás, na net um meme fabuloso em que um Caminhante Branco desabafa: “Ela tem dragões…”, ao que o Night King contrapõe: “Segura-me aqui na cerveja.”

[Desculpe, leitor que não segue a série ou ainda não chegou ao sexto episódio da sétima temporada. Eu juro que isto tem imensa piada.]

Já aqui escrevemos que um White Walker de “Game of Thrones” mete mais medo do que todos os Walkers de “The Walking Dead”. Em “The Walking Dead”, os zombies são o princípio; em “GoT”, o fim – e isso faz toda a diferença. Os autores geriram inteligentemente as suas aparições durante anos a fio, mas algum dia teriam de começar a trazê-los a jogo – esse dia chegou na sétima temporada, e o resultado não é, digamos, estupendo.

No último episódio, ficámos a saber que, quando matamos um destes Caminhantes Brancos podem morrer todos os que estão em volta, porque foram “virados” por ele. Uma vantagem com que não contávamos, vá, e que manda borda fora, de uma penada, metade do medo que eles metiam até aqui. E outra coisa: podem morrer todos menos um, que pode ficar ali a estrebuchar se, por acaso, nos der jeito para ter um exemplar que possamos levar prisioneiro até King’s Landing para convencer Cersei da existência desta malta maluca lá por cima.

Finalmente, disseram-nos durante anos que só o vidro de dragão matava os mortos-vivos (outra vantagem extraordinária sobre os zombies de “The Walking Dead” a quem, na falta de uma metralhadora ou vá, de uma catana, basta vazar uma vista com o cabo de uma vassoura). Surpresa das surpresas, no último episódio (sempre o suspeito do costume), fica-se com a sensação de que, afinal, vidro de dragão, aço valiriano, espadas em chamas, tudo isto serve para matar mortos-vivos. Se a sorte nos tiver abandonado, talvez descubramos no episódio 7 que, com boa vontade, uma galheta bem dada também resolve o assunto. E lá se foi mais metade da metade que sobrava do medo que ainda metiam os Caminhantes Brancos.

Não são. Temos pena, mas já não se pode confiar em ninguém. Nem num morto. “GoT” costumava varrer sem misericórdia os seus protagonistas e isso era uma das coisas mais incríveis da série, não em si mesma, porque seria gratuita, mas porque constituía o exemplo acabado da crueldade das regras do jogo neste universo. Tirava o tapete ao espectador, habituado a estar no controlo desde que Aristóteles explicou como é que isto se fazia. Ao contrário daquilo a que a ficção nos habituou, os heróis podiam morrer a meio do percurso e não apenas no fim – a história podia não ser necessariamente sobre eles.

“Guerra dos Tronos” é muito mais do que uma série. É já um clássico moderno

Na sétima temporada, porém, há tanta coisa para despachar em tão pouco tempo que as mortes se sucedem sem o crescendo dramático que as deveria conduzir ao lugar climático em que teriam de se encontrar. De outro modo, é, simplesmente, um desperdício narrativo. As “serpentes da areia”, Randyll Tarly e Dickon Tarly, Thoros de Myr, Benjen Stark… Não têm faltado mortes. E, no entanto, sucedem depois de desaparecimentos tão longos das personagens, ou quando ainda agora os tínhamos ficado a conhecer (caso de Dickon), que não há tempo de estabelecer uma relação; não se constrói uma ligação e, portanto, também não há perda. São derrubados como pinos no bowling. Nada significam.

[a propósito de mortes, aquela vez em que Jaime Lannister tenta matar Daenerys mas, enfim…]

Entretanto, os heróis e os vilões, os verdadeiros protagonistas, há muito permanecem confortavelmente a salvo. Já não tememos pela vida de Tyrion, nem pela de Jamie, muito menos por Daenerys ou Cersei. E o pior de tudo é que, mesmo que, por acaso, morram, alguém os traz de volta. Sabemos isso desde que Jon Snow… Enfim, vocês sabem do que estamos a falar.

É outro daqueles casos que não começou na sétima temporada, mas que a falta de tempo fez agora acentuar. Na sua estrutura multiplot, “Game of Thrones” vai saltando de núcleo em núcleo de personagens (e, no fundo, de reino em reino) ao longo do argumento. Todos os episódios deixam muitas personagens de fora, mas essa é uma das marcas da série e uma das razões do seu carisma.

A porca só torce o rabo (desculpem, mas deu-nos de repente uma saudade desta expressão. E, no fundo, numa série onde cada família tem por símbolo um animal – lobos, leões, cisnes, etc – também não fica assim tão mal uma porca) a partir do momento em que há personagens que, pura e simplesmente, se eclipsam episódios a fio, quando não temporadas inteiras. Mais: quando regressam, fazem-no sem explicação, como se tivessem ficado algures suspensas num limbo congelador e retiradas, prontas a usar, no momento em que faziam falta aos autores.

“Guerra dos Tronos” continua a ser uma série extraordinária e esta temporada já teve momentos e episódios notáveis, mas corre o risco de ser vítima do próprio sucesso. Veremos o que acontece no fim.

Benjen e Gendry são dois casos estridentes, mas há por exemplo Theon, Melisandre, a outra bruxa vermelha que apareceu no final da sexta temporada, os Filhos da Hárpia, os Homens sem Rosto – como é possível? Onde andam os Homens sem Rosto, meus malandros? – e até a Irmandade que, justamente por ter andado desaparecida tanto tempo, esvaziou por completo a morte de Thoros, que deveria ser uma personagem importante (recordemos que era, ironicamente, o responsável pelas ressurreições). Se o autor desvaloriza as suas próprias personagens, não as considerando importantes o suficiente para aparecerem durante temporadas inteiras (e lembremos que cada temporada representa, grosso modo, um ano. Sabemo-lo pelo crescimento das crianças e adolescentes como Bran, Arya ou mesmo Sansa), como pode esperar que o público se importe com elas?

A esse respeito, o caso mais grave da sétima temporada é, provavelmente, Euron Greyjoy, que apareceu como candidato a personagem ainda mais odiosa do que o rei Joffrey ou Ramsay Bolton, mas que desapareceu, sem deixar rasto, há vários episódios. Se vai voltar neste e em grande? Ah, é muito provável. Mas será assim que se constrói um vilão?

Dany. Sim. O que é que foi aquilo? Anos de cerimónia, de construção de personagens austeras, de ambiente senhorial. Depois, meses de aproximação entre duas das personagens principais (o que em si mesmo irrita um pouco porque é demasiado óbvio, porque são os dois únicos heróis clássicos da trama, meios desenxabidos, um bocado Lukeskywalkerescos quando a malta gosta é de Han Solos e Vaders), será que têm mesmo de se tornar no par romântico da coisa? Mas a esse respeito, o do desfecho, ainda há esperança.

Agora, que Jon Snow, o rei do Norte, o suposto bastardo de Ned Stark, o mártir, o estóico, o antigo comandante da Patrulha da Noite, o herói que se recusava sequer a ajoelhar perante Daenerys Targaryen e, portanto, a reconhecer a sua soberania, de repente a trate a ela, a rainha sem trono, a argêntea mãe dos dragões, a filha do Rei Louco, sem mais nem ontem, por… Dany… é que é o fim da macacada (sim. Depois da porca, a macacada). O fim. De repente, passámos de uma espécie de Idade Média para o bar dos “Morangos com Açúcar”. Aquilo já era estranho.

Episódios uns atrás dos outros com ela a não lhe dar a bola que ele nem sequer chutou; de repente, fica com um brilhozinho nos olhos só por lhe ver as cicatrizes – ou os abdominais, não se percebeu bem – e, eis senão quando… “Dany”?! Ele chama-a de “Dany”?! E não mandou props pó people do 9º B? E isto, basicamente, apenas para Daenerys dizer que só o irmão é que a tratava assim? Quão subtil se consegue ser na sugestão incestuosa da cena? Alguém ainda não tem presente essa possibilidade nesta altura do campeonato? Algum braço no ar? Não? OK, vamos continuar…

Bom, e no fim a conclusão é esta: talvez o problema seja mesmo do sete. Não do símbolo, não dos sete reinos, não dos sete deuses, não dos sete Starks, não dos sete membros da Guarda Real, mas do facto de os autores terem decidido que, ao contrário dos dez episódios das anteriores, esta temporada teria apenas sete – e a oitava e derradeira, recordamos, ficará pelos seis.

No fundo, as pressas em percorrer as distâncias que, antes, tanto demoravam a fazer e que, justamente no percurso, construíam e revelavam as personagens; a falta de definição dos dragões e dos mortos-vivos no momento em que, por fim, se era chamado a fazê-las; as mortes sem build-up, a evaporação de personagens e até a trapalhona aproximação de Jon Snow e Daenerys – tudo isto se explica, provavelmente, pela falta de tempo. Pelo ritmo imposto à sétima temporada, obrigada a meter o Rossio na Betesga (sítios, como sabemos, localizados algures ali entre Riverrun e Harrenhal) uma e outra e outra vez, à medida que conduz uma saga multiplot colossal para um final que ainda nem o seu autor original conseguiu gerir de modo a materializar em livro. Voltamos ao ponto onde começámos: “Guerra dos Tronos” continua a ser uma série extraordinária e esta temporada já teve momentos e episódios notáveis, mas corre o risco de ser vítima do próprio sucesso. Veremos o que acontece no fim. Valar morghulis*. Mas ainda não.

[“Valar morghulis” é valeriano para “todos os homens têm de morrer”]

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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