Game of Thrones: a série está rendendo-se ao esperado?

By | 2nd September 2017

*Este texto contém spoilers sobre a sétima temporada*

No domingo passado assistimos ao episódio final da sétima temporada de Game of Thrones. Foi o recorde de audiência para um episódio de série. Só a emissora HBO é capaz de nos apresentar um produto tão bem produzido e com personagens e história tão viciantes. Com apenas uma temporada faltando para encerrar a série, ficamos todos no suspense. Depois de tantas intrigas, amores, assassinatos e guerras, alguém terá que vencer.

A série continua um entretenimento sólido e capaz de capturar nossa atenção completamente. Ao longo de sete semanas, respiramos e discutimos Game of Thrones; e a perspectiva de ficar mais de um ano sem novos episódios (aparentemente, a série só volta em 2019) é um pouco desesperadora. Ainda assim, algo foi perdido.

A história segue o rumo esperado, e até exigido pelos fãs. Na próxima e última temporada, teremos a conflagração final no continente de Westeros: a guerra dos humanos contra o exército de mortos e criaturas da neve, e, o que não é menos interessante, a guerra entre os humanos para definir quem, afinal de contas, sentará no trono de ferro e terá, finalmente, a soberania inconteste sobre seus territórios.

Mas talvez o que se perdeu seja justamente isso: a série segue o rumo esperado. E o que fez de Game of Thrones o fenômeno que ela é hoje foi justamente sua capacidade de passar a perna no espectador (e nas expectativas normais de uma narrativa) e nos surpreender com viradas de enredo e mortes simplesmente cruéis: cruéis pelo efeito que tinham em nós.

Quando Ned Stark – o exemplo de um líder honrado em meio à sordidez da corte de King’s Landing –, prisioneiro de um complô vergonhoso, é decapitado no fim da primeira temporada, percebemos que a série não era normal. Não houve nenhuma surpresa de último minuto, nenhuma reviravolta, nenhum artifício de enredo para salvar o mocinho: ele ia ser executado e, de fato, foi. A mesma estupefação do espectador – talvez ainda maior – se deu quando, algumas temporadas à frente, seu filho, Robb Stark, a grande esperança de paz e justiça para o reino, caiu em uma emboscada totalmente inesperada e também foi morto, junto com sua mãe e sua esposa grávida.

Em um caso, o que estava telegrafado para acontecer, aconteceu; no outro, ocorreu algo sem nenhuma indicação prévia. Em ambos, as expectativas com que sentamos para assistir a uma série de fantasia foram subvertidas. Estávamos assistindo ali a uma série que, apesar da magia e dos dragões, trazia consigo o caos amoral da realidade.

Nesta sétima temporada, ao contrário, prevaleceu o convencional. Jon Snow, o grande líder do norte e atual epígono de virtude e honra (filho de criação, ele também, de Ned Stark), cai em um lago gelado cercado de soldados mortos-vivos.

Em uma narrativa normal, o herói daria um jeito de escapar contra todas as probabilidades. A única série que possivelmente o mataria nesse caso é justamente Game of Thrones. E, no entanto, não foi o que aconteceu: ele sai da água gélida e, encharcado e ferido (em meio a um frio abaixo de zero), consegue sobreviver tempo o bastante para ser resgatado pelo tio, que convenientemente estava passando ali por perto. Na temporada, contei pelo menos três mortes falsas de personagens importantes (aquele clichê de fazer parecer que um personagem morreu, só para ele aparecer são e salvo na cena ou episódio seguinte); mas Game of Thrones se notorizou justamente pelas mortes verdadeiras…

Inegavelmente, a redução no tamanho da temporada (que caiu de dez para sete episódios; a próxima terá só seis) também cooperou para a narrativa perder o detalhamento e o cuidado que aprendemos a esperar dela. Deslocamentos continentais feitos em velocidades impossíveis, planos mirabolantes quando soluções aparentemente muito mais factíveis nem foram consideradas. As cenas de guerra foram excelentes, mas o enredo sofreu um pouco.

Um final épico a caminho

Talvez seja inevitável. A trama precisa caminhar para um desfecho épico. O público urrará de ódio se não for assim. Supondo que a ameaça sobrenatural e maligna do Rei da Noite e sua horda de mortos-vivos seja vencida, temos três personagens principais que podem ocupar o trono: Daenarys Targaryen, a rainha do além-mar que se crê a herdeira da linhagem real milenar que fora deposta antes da série começar; Jon Snow, que é o herdeiro legítimo dessa linhagem, informação crucial que só descobrimos nos últimos episódios; e Cersei Lannister, atual ocupante do trono.

Jon Snow prestou vassalagem a Daenarys e agora a trata como sua rainha e parceira romântica (poucos sabem que os dois são, na verdade, tia e sobrinho). Ela representa as boas intenções em sua forma mais opressiva e segura de si: por onde passa liberta os escravos, promete um reino de liberdade e felicidade para todos, quer apenas o bem. Além disso, tem nas mãos uma arma superpoderosa: dragões. Um dos pontos altos desta temporada foi mostrar que os dragões são vulneráveis. Era simplesmente inaceitável ver essa pretendente à rainha com uma arma letal, localizada e basicamente indestrutível. Tanta virtude e tanto poder oprimem; o mundo precisa de um pouco de sombra.

No outro polo, temos Cersei, a minha favorita. Longe dos idealismos (que só vivem à custa de muita magia e dragões), ela sabe das exigências duras que a realidade faz dos poderosos, e não foge delas. Quando sua sobrevivência e a de sua família exigiram explodir a catedral do reino, junto com uma série de nobres e sacerdotes, foi isso que ela fez (no que foi o último evento grandioso e verdadeiramente emblemático da série, no fim da temporada anterior). Governa para si e para sua família. Exagera na maldade, é verdade, quem não se identifica com seus sentimentos levados ao último grau: a filha sempre preterida por ser mulher, a amante de um amor proibido, a mãe que perdeu todos os filhos?

Infelizmente, ela está fadada a perder. Primeiro pela maldade, que acaba sendo punida. E em segundo porque ela é apenas humana; não tem sangue mágico como os outros dois: não tem um lobo místico a lhe obedecer, não tem resistência mágica ao fogo, não controla dragões. Sua única arma é a ciência e o abandono com que se lança em planos extremos, cujos únicos desfechos possíveis são a vitória completa ou a morte.

Outro detalhe que não passou despercebido é que a série, definitivamente, “pegou feminismo”. Com isso me refiro à intrusão de valores alheios ao universo narrativo e que se fazem sentir em algumas frases e, acima de tudo, no sexo. Longe estamos dos tempos em que Game of Thrones mostrava sexo gratuito e hedonista – seguindo, aí, a ética pagã dos personagens. Nesta temporada, tivemos apenas a relação de um eunuco com uma bela jovem, em que ele só dá prazer e ela só recebe.

A segunda, mais importante, foi a tão esperada relação entre Jon Snow e a rainha Daenarys. Uma relação morna e terna. Inicialmente, é ele quem está por baixo, mas em dado momento vira a cena e é ele quem se coloca na posição dominante. Será esse um presságio das viradas e do conflito iminente entre os dois, que a próxima temporada certamente trará?

Afinal, ele, e não ela, é o rei de direito. Ainda que mais convencional, Game of Thrones nos guarda muitas surpresas e um desfecho grandioso, digno de tudo que foi construído até agora. Meu lado sombrio nem descarta a hipótese de que surpresas ainda mais subversivas e cruéis com o espectador estejam guardadas para a última temporada. Pena ter que esperar mais de um ano…

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