Game of Thrones 7: os dados estão lançados

By | 30th August 2017

Game of Thrones despede-se uma vez mais dos fãs, num episódio que quebrou uma série de recordes. “O Dragão e o Lobo” teve a maior audiência de sempre do canal HBO, foi o mais longo de todos os episódios da série e contou com momentos chave para a introdução da derradeira temporada da série de televisão mais influente de sempre. Está na hora de fazer um balanço de temporada.

Aviso: Como a noite é escura e cheia de terrores, este artigo será longo e repleto de spoilers. Aconselhamos a todos aqueles que ainda não viram o episódio 7 da temporada 7 de Game of Thrones a não navegarem por estas terras e a apanharem o barco diretamente para outros artigos.

A sétima temporada da mais famosa série da HBO, Game of Thrones, fez correr muita (demasiada até?) tinta. O fenómeno criado em volta do mundo de George R.R. Martin quebrou todas as fronteiras e está cada vez mais a definir-se como um fenómeno de cultura pop nunca antes testemunhado no mundo da televisão. Nunca antes uma série de fantasia foi tão vista, comentada e acompanhada. Graças a isto houve um role de peripécias, desde leaks a hackers, de spoilers falsos a guiões a circular. Enfim, uma série de acontecimentos que, apesar de colocarem a série constantemente na ordem do dia, facilitaram também a alguma saturação mediática e estragaram a experiência de visionamento desta sétima temporada.

game of thronesPeripécias reais à parte, está na altura de falarmos das peripécias dos 7 Reinos e daquilo que nos foi mostrado no universo que é cada vez mais de David Benioff e D.B. Weiss e não de Martin. Podemos resumir a sétima temporada como uma série de encontros improváveis. Desde reencontros de personagens que já não se viam desde que Ned Stark ainda andava por King’s Landing, a personagens que nunca se viram antes, duplas e triplas de improviso, de tudo um pouco. E no meio de tanto (re)encontro, o ponto de partida dado pela sexta temporada foi completamente transfigurado quando acabamos o visionamento de “O Dragão e o Lobo”.

Talvez dos pontos mais interessantes em termos da narrativa destes sete episódios foi a forma como Benioff e Weiss contrariam tudo aquilo que nos parecia o mais óbvio. Começamos a temporada com uma história claramente traçada: este seria o derradeiro caminho da Dany ao Trono de Ferro, Cersei iria cair e, depois, lá se tratava da ameaça ao Norte. Game of Thrones, como sempre, troca-nos as voltas e começamos desde logo a perceber que algo não estava bem quando cada aliado dos Targaryen cai que nem peças de xadrez a cada jogada dos Lannister.

Foi nestes momentos à la House of Cards, de planos e contra-planos, trabalhos de bastidores, diplomacia e diálogos, que esta temporada realmente brilhou. Por isso é que este último episódio foi talvez o mais forte dos sete, já que evitou sequências de ação desenfreadas e épicas para dar lugar àquilo que conquistou desde sempre os fãs de Game of Thrones: as inteligentes trocas de palavras entre as mais variadas personagens. Para mim, que acompanho a série e li os livros de Martin, duas das cenas em que o meu coração mais palpitou foram o concílio no Dragon Pit de King’s Landing e a conversa de Tyrion com Cersei. Momentos que salvaram a temporada de uma série de eventos algo confusos e feitos para despertar mais as nossas sensações que para a construção de uma narrativa com pés e cabeça.

game of thronesFalando das fragilidades desta sétima temporada temos que passar, inequivocamente, pelo “elefante na sala”. Os saltos temporais; o teletransporte de personagens e o facto de Westeros parecer ter 10km2. Ao longo desta temporada os saltos temporais e o teletransporte foram uma mecânica bastante usada e que contradiz todo o ritmo que a série teve desde a sua primeira temporada. Além de muitos vociferarem contra estas críticas ao dizer que a série tem que aumentar de ritmo já que se encontra a seis episódios do seu fim, a necessidade desse aumento não justifica o desleixe na construção da ambiência que Game of Thrones sempre foi perita em criar.

Além de vivermos num mundo de fantasia, onde existem dragões, zombies e magia, o mundo criado por Martin e, por consequência, por Benioff e Weiss, tem por base a época medieval europeia. É um mundo inspirado noutro que existiu e que teve as suas limitações. Por engraçado que pareça, as fantasias de dragões, mortos-vivos e deuses do fogo faziam também parte da mitologia desta época e, talvez por isso, é melhor encarada pelo telespectador do que o constante teletransporte das personagens que apenas seria possível hoje, com o desenvolvimento de transportes e redes de internet e de troca de informação.

A justificação de Benioff e Weiss para, por exemplo, terem construído a cena do salvamento além da muralha no episódio seis é, por si só, francamente desleixada, de uma forma a que Game of Thrones nunca nos habituou. Os dois referiram em entrevista que sim, os saltos temporais existem e que estão meio confusos nesse episódio mas que eram necessários. Não o eram, caso a escrita não tivesse sido desleixada.

game of thronesTer Daenerys a receber um corvo com uma mensagem de Gendrick (que esteve além muralha mas correu para East-Watch-By-The-Sea) e viajar além muralha numa fração de cinco minutos de episódio é tão estranho como se Benioff e Weiss cortassem para o Bran Stark sentado na sua cadeira a ver televisão junto da lareira do seu quarto em Winterfell… Historicamente não faz sentido, a nossa conotação com o real quebra-se e a ambiência criada é interrompida para nos fazer lembrar de que não estamos mesmo lá, mas que estamos a ver uma série de televisão.

São estes pequenos detalhes que faltaram em quase todos os episódios desta nova temporada e que nas anteriores, exceto nalguns casos no final da sexta, eram tomados em conta. A escrita, devido a estes saltos, ficou refém destes momentos e as sequências de ação outrora fascinantes (Hardhome), parecem agora exacerbadas e paródias delas mesmas (batalha entre a Dany e o Night King). Além disto, nós perdoamos, porque continuam ao mesmo tempo a ser gigantes e fascinantes e não conseguimos tirar os olhos do pequeno ecrã.

E é por isso que Benioff e Weiss já se mostram à vontade para criar momentos estapafúrdios, porque sabem que nós, os fãs, os vamos perdoar imediatamente. Basta haver uma troca de galhardetes entre os Stark, um encontro esperado há anos ou uma morte convincente, que nos esquecemos que o Gendry mandou mensagem pelo Whatsapp à Dany para ir ao salvamento dos seus companheiros de batalha.

game of thronesJá em termos de prestações, foi mais uma temporada irrepreensível para Lena Headey e a sua magnética Cersei. De sentenciada a morrer a uma das mais sérias ameaças às pretensões de Daenerys Targaryen ao Trono de Ferro, Lena conseguiu uma vez mais encarnar na perfeição todas as ambivalências de Cersei, quiçá a personagem mais bem explorada nesta temporada. De rainha implacável e sem escrúpulos a mãe zelosa e irmã mortificada, a atriz encontra-se neste momento num patamar já diferente de todas os seus colegas.

Ainda com o devido e normal destaque a Peter Dinklage, que teve nesta temporada mais tempo para brilhar, conseguindo para o seu Tyrion Lannister uma das melhores cenas junto da sua irmã, temos ainda de falar de Nikolaj Coster-Waldau e o seu dividido Jaime Lannister, passando por Sophie Turner e a definitiva maturação de Sansa, a favorita dos fãs Maisie Williams com a sua Arya e, sem esquecer, a magnífica despedida de Diana Rigg da sua Olenna Tyrell, uma personagem que deixará saudades.

Em suma, esta é uma temporada que tem como grande propósito lançar os dados e definir o jogo para a grande e definitiva temporada de Game of Thrones. É um conjunto de episódios que nos deixa já nostálgicos ao saber que estamos a chegar ao fim, mesmo que ainda falte (muito provavelmente) mais de ano e meio de espera. É uma temporada que prova a excelência de uma série que tem vindo de ano para ano a crescer, mas que demonstra também algumas fragilidades que resultam da sua própria dimensão.

Game of Thrones ainda não deu o passo em falso, mas nesta temporada, e em episódios como “Stormborn” e “Beyond the Wall” foi, de certa forma, interessante ver que o poderiam ter dado. Exatamente como em “The Spoils of War” foi demonstrado que os dragões de Daenareys não são invencíveis, quando Bronn atinge Drogon, Game of Thrones também não escapa aos seus momentos menos bons.

Apesar de ser de longe a temporada mais bem sucedida, foi também das mais frágeis a nível narrativo e na construção das personagens. Resta agora ver se a acumulação das fragilidades é, ou não, facilmente colmatada com os derradeiros episódios da temporada 8. Vamos torcer para que sejam, na verdade ainda estamos a falar da maior e mais revolucionária série da televisão.

Avaliação: 7/10

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