Aps 25 anos, o pice de Twin PeaksJornal TodoDia

By | 8th September 2017

Rodrigo Pereira | Editor do jornal TODODIA e criador do blog: http://cinexistance.blogspot.com.br/ – 07/09/2017-22:42:44 Atualizado em 07/09/2017-22:39:58

No ltimo episdio da segunda temporada de “Twin Peaks”, em 1991, a protagonista Laura Palmer diz mais um dos inmeros enigmas da srie ao agente do FBI Dale Cooper: “vejo voc em 25 anos”. Aps isso, um filme lanado em 1992, trazendo os dias que antecederam o assassinato de Laura, mote da srie, e depois disso um hiato. E, quando muitos j desacreditavam, o anncio da retomada, exatamente 25 anos depois. Se voc me perguntar como Lynch “previu” que conseguiria revisitar uma de suas obras primas especificamente em 2017, te respondo que, tratando-se desse gnio da arte, perguntas so mais convenientes do que respostas. Mas uma certeza posso dar: a terceira temporada de “Twin Peaks”, que terminou nesta semana, a mais madura, enigmtica e pioneira de todo seu universo.

Seguro e ostentando uma assinatura surrealista nica, o cineasta volta cidadezinha interiorana que conhecemos no passado, profundamente afetada pelo assassinato de Laura e, de forma incrvel, rene quase todos os atores que interpretaram os personagens clssicos, apresentando-os de forma dosada, em inseres equilibradas de nostalgia. Mas, dessa vez, no so apenas eles. O diretor expande o universo da srie para metrpoles, utilizando dezenas de novos personagens, e desafiando a memria de sua audincia nas incontveis subtramas filmadas. Assim, mostra-se totalmente adaptado ao contemporneo, mesmo tendo feito seu ltimo filme h 11 anos. Uma das provas disso o personagem Dougie Jones que, por um desenrolar da srie, desenvolve um catatonismo que o faz apenas conversar repetindo as ltimas frases das falas das outras pessoas. Quem interage com ele sequer percebe tantos problemas naquela condio, em uma evidente forma lynchiana de expor a sociedade atual, que est mais interessada em falar do que ouvir o outro. H 25 anos, no entanto, uma das cidas crticas era a uma espcie de “novo sonho americano” apresentado nas sries de TV, com adolescentes em seus romances bobos. Lynch levou to a srio seus sarcasmos em relao a isso na poca que ganhou pblicos que ignoravam ou no entendiam sua stira em relao aos clichs novelescos.

Ele e seu parceiro Mark Frost tambm evoluem como nunca antes vi o conceito de duplo, utilizado por grandes nomes da literatura, como Fiodor Dostoievki e Jos Saramago. Nesse contexto, tambm expandem os conceitos de universos paralelos, relatividade temporal e uso de entidades como representao de conceitos como o mal e a sabedoria. E voltam mais explcitos. No se censuram em cenas de sexo e violncia, chegando a emular Tarantino em momentos de ao com Tim Roth e Jennifer Jason Leigh. Mas trata-se de Lynch, e ele vai de uma ponta a outra com uma naturalidade que poucos atingem. Passa a usar menos a linda trilha sonora tradicional de Angelo Badalamenti, corrigindo um erro do passado, quando exagerava nessas inseres, para dar profundidade ao silncios, no apenas como intervalos de respiro, mas tambm para incomodar o espectador, que em alguns pontos fica como um observador de dois personagens que se entreolham por 20 segundos sem dizer qualquer palavra. E esse apenas um dos artifcios tcnicos utilizados com esse intuito. Um farol que acionado intermitentemente, um grito estridente ou algum rudo bizarro so esporadicamente adicionados a uma cena para que o pblico sinta-se to perturbado quanto os personagens que esto diante dele.

Temos episdios de passagem, com cenas aleatrias que j valem a pena, mas tambm hecatombes, como no episdio 8, que j pode ser considerado um marco da TV. No mesmo horrio da badalada Game of Thrones, a ShowTime teve a coragem de televisionar uma hora do mais puro surrealismo audiovisual, com David Lynch metaforizando da forma mais ousada possvel o “nascimento do mal”.

Kyle MacLachlan, que d vida a Dougie, novamente o cone cnico da produo, desta vez em mltiplos papis. interessante notar, ainda, que na retomada o diretor tambm passou a fazer Twin Peaks dialogar com outras obras suas. Musas de outros filmes seus, como Laura Dern e Naomi Watts, so escaladas para papis cruciais. O elenco ainda povoado por msicos. Em meio a tantos pioneirismos, o cineasta ainda insere apresentaes musicais nos episdios, em um dos j conhecidos bares da cidade principal, brindando o pblico com sons completos de Nine Inch Nails, Eddie Vedder, Chromatics, entre outros.

No bastasse o receio do espectador em perder algum detalhe que o faa no entender alguns dos enigmas de Lynch (embora seja sabido que o cineasta no de entregar todas as respostas), o diretor ainda provoca seus seguidores a cavar fundo para decifr-lo. Em uma sacada ousada, inseriu nas cenas deletadas do filme de 92 uma contextualizao importante sobre as peas essenciais de todo o quebra-cabeas.

E nos episdios 17 e 18, lanados nesta semana, entrega um final que contempla muitos pontos de vistas e teorias mas no deixa de buscar surpreender, expandir, chocar e confundir. Seno, no seria Lynch e seu mundo dos sonhos. “Somos como o sonhador que sonha e vive dentro do sonho mas quem o sonhador?”

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