2:22 – Encontro Marcado | Crítica

By | 6th September 2017

A sinopse de 2:22 Encontro Marcado poderia ser resumida como a jornada de um homem para fugir do que os astros reservam para seu destino, mas seria muito simplista para uma produção que se propõe a misturar um monte de subtramas. O longa assinado por Paul Currie, em sua segunda incursão como diretor de ficção no cinema, anexa ao principal fio condutor da trama um romance meteórico, um assassinato mal resolvido no passado e uma história nas entrelinhas sobre superação de medos. O resultado dessa salada de assuntos é uma completa bagunça protagonizada por personagens sem um pingo de carisma, onde todas as conexões pretendidas soam fracas e forçadas.

Michiel Huisman, mais conhecido por ter substituído Ed Skrein no papel de Daario Naharis em Game of Thrones, interpreta Dylan, um operador de tráfego aéreo que paradoxalmente tem medo de voar – detalhe esse que, como vários outros jogado ao longo do filme, não é exatamente relevante para a trama. A história principal diz respeito a padrões: Dylan percebe que há uma série de eventos que acontecem de forma coordenada dia após dia ao seu redor. No fim de uma sequência de latidos, gotas caindo e insetos mortos, às 14h22 ele nota que sempre os mesmos tipos de pessoas – um empresário lendo jornal, um grupo de crianças e uma mulher grávida – marcam presença no Grand Central Terminal, em Nova York.

Ainda que seja um mistério para Dylan, o filme usa uma televisão passando notícias – um recurso bastante questionável – para colocar nas entrelinhas que a sucessão de eventos repetidos são causados por conta de uma estrela que morreu há trinta anos, mas cuja luz ainda pode ser vista da Terra. O enigma mesmo está no motivo pelo qual isso impacta Dylan – mas será um erro do espectador que esperar uma grande revelação sobre isso.

O filme não se resume à busca de Dylan por explicações e logo Sarah, papel de Teresa Palmer, é introduzida na trama. O suspense sobre as repetições acontece em paralelo ao romance entre Dylan e Sarah, uma história absolutamente preguiçosa e pouco cativante. Os dois se conhecem durante uma aleatória exibição de ballet aéreo na qual Dylan faz questão de pontuar que “só estava lá por conta de uma aposta” – é o único momento em que o filme se preocupa em fazer credíveis suas situações mais fantasiosas, como, por exemplo, um flerte heterossexual durante uma sessão de ballet aéreo. O que vem depois disso é menos empolgante ainda. Basicamente, a grande história de amor do filme envolve um encontro, umas mensagens marcando outro encontro, uma briga com o ex-namorado da mocinha, promessas e a certeza do amor eterno – melhor que isso só se eles tivessem se conhecido no Tinder.

É uma marca do filme, aliás, manter a personalidade e os desdobramentos interpessoais dos personagens no nível mais raso possível. O amor entre Dylan e Sarah é tão casual que chega a ser assustador quando o público é surpreendido por declarações enfáticas de ambos sobre passar o resto da vida juntos. A única justificativa que o filme apresenta para unir os dois sem o menor esforço em relação ao enredo é que eles estariam predestinados por conta da tal estrela que subjuga todos os eventos, ainda que seja óbvio isso por si só é tão empolgante quanto um casamento arranjado. Há uma série de coincidências entre os dois que em geral soam simplesmente como coincidências – por exemplo, no começo do filme, o espectador vê Dylan quase causando uma colisão entre dois aviões e, depois, descobre que Sarah estava em um deles. Aliás, vale pontuar que o momento em que os dois descobrem essa “ligação” rende um dos piores diálogos do filme.

Ao longo da trama, Dylan descobre – da forma mais aleatória possível – que a tal estrela que morreu liga ele e Sarah a um evento fatal que aconteceu na Grand Central Terminal no passado entre dois homens e uma mulher. Como o assassinato no passado envolvia três pessoas, há um terceiro personagem no quebra-cabeças: Jonas, papel de Sam Reid, ex-namorado de Sarah. O problema é que, durante o filme, o roteiro não se empenha minimamente para relacionar o personagem à trama, levando a pergunta: “por que exatamente Jonas está envolvido na trama de amor e assassinato dos protagonistas?” A resposta é: porque é mais cômodo – essa é a única explicação plausível, já que o desenvolvimento do personagem é pífio. De um ex-namorado inexpressivo, ele vira um louco obsessivo – e isso não soa como uma reviravolta surpreendente, mas como uma evolução incoerente do personagem.

A conclusão do longa é tão decepcionante que vai além de ser óbvia – simplesmente não faz o menor sentido. Em uma trama que se pretende intrincada sobre predestinação e padrões, 2:22 Encontro Marcado perde muito tempo entregando uma enxurrada de situações que não acrescentam nada à história, como um acidente de táxi e uma tentativa de suicídio. A relação entre Dylan, Sarah e Jonas é extremamente superficial, não convence e a forma como as tramas do passado e do presente se encaixam é absurdamente forçada, desde a descoberta dos pontos de conexão, passando pelas coincidências e chegando à forma como os protagonistas se propõe a quebrar esse ciclo. Se 2:22 fosse um encontro marcado na vida real, seria daqueles que são tão ruins que só nos fazem pensar que seria melhor ter ficado em casa.

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